Dom Pedrito volta a ser palco de apreensões de pássaros silvestres no RS

Cidade da paz enfrenta drama com caça, maus-tratos e tráfico de aves

A tranquilidade de Dom Pedrito, conhecida como “cidade da paz” na fronteira com o Uruguai, tem sido abalada por um problema persistente: o tráfico de animais silvestres. Na manhã desta quarta-feira (04), a Polícia Militar apreendeu diversas aves, entre elas trinca-ferros e cardeais, em situação de maus-tratos. O suspeito detido comprava pássaros de caçadores para revendê-los na capital

A caça ao tráfico  ️Assista

Maus-tratos e descaso com a vida animal

Segundo os policiais, as aves estavam mantidas em condições precárias. Gaiolas sujas, bebedouros com água parada de dias e potes de comida contaminados com fezes mostravam o descaso. Muitos animais estavam debilitados, confirmando o sofrimento enfrentado por essas espécies.

Essa não foi a primeira ocorrência recente: no mês passado, a Polícia Federal já havia apreendido 71 pássaros no município, reforçando o alerta sobre a atuação de redes de captura e venda ilegal.

Rota do tráfico no Sul do Brasil

Apesar da fama de cidade tranquila, Dom Pedrito tem se tornado ponto estratégico para o comércio clandestino de aves. A caça predatória atinge principalmente o cardeal, mas também outras espécies, como o coleiro-do-brejo.

A cidade só perde em intensidade para Santa Isabel, próximo a Jaguarão, outro polo da caça ilegal, onde até mesmo cisnes-de-pescoço-negro são capturados na época da muda de penas.

De acordo com investigadores, as aves são transportadas em fundos falsos de veículos, caixas de papelão, sacolas plásticas e até garrafas de água cortadas ao meio. O objetivo é levá-las clandestinamente até grandes centros urbanos.

Mercado clandestino e anilhas falsas

O destino das aves são as vilas das regiões metropolitanas, onde compradores clandestinos mantêm a demanda. Quando um pássaro apresenta destaque pela sua “fibra” em torneios, ele é submetido a uma nova forma de crueldade: o anilhamento fraudulento.

Para tentar dar aparência de legalidade, são usadas anilhas falsificadas ou até cópias adulteradas do Sispass (Sistema de Controle e Monitoramento da Atividade de Criação Amadora de Pássaros), acompanhadas de notas fiscais falsas. Isso permite que aves retiradas da natureza sejam inseridas no mercado como se fossem legalizadas.

Impacto ambiental e desafio das autoridades

O tráfico de animais silvestres é considerado o terceiro maior comércio ilegal do mundo, perdendo apenas para o tráfico de drogas e armas. Estima-se que, a cada 10 animais retirados da natureza, apenas 3 morrem e 7 sobrevivem até o destino final, devido ao transporte cruel e alimentação do tráfico

No caso de aves canoras, como cardeais e trinca-ferros, o impacto é ainda mais grave: a retirada constante de exemplares reprodutores ameaça populações inteiras, que já sofrem com perda de habitat.

As autoridades reforçam que a população deve denunciar práticas suspeitas, lembrando que manter, comprar ou vender aves sem registro é crime ambiental, com penas de até 1 ano de detenção e multa por animal apreendido.

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